Em 2024 foram vendidas 4.639.807 unidades de canetas, enquanto em 2025 o número chegou a 5.822.868. Esse crescimento considera apenas os produtos vendidos regularmente.

O lixo de gerado por esses medicamentos é preocupante, já que fármacos descartados inadequadamente podem contaminar água e solo e causar resistência microbiana, no caso de antibióticos, e atuar como desreguladores endócrinos, como é o caso das canetas que contêm hormônios, explica Suzete Caminada, que estuda contaminação ambiental causada por fármacos na Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) e integra o grupo técnico de logística reversa, resíduos e gestão ambiental do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia de São Paulo).

As canetas possuem um problema extra de descarte: as agulhas. Caminada diz que esses produtos não são um resíduo simples: têm plástico, vidro e agulha, e dependendo do modelo (dose única ou múltipla), a agulha pode vir junto ou separada. Isso complica o descarte porque cada componente segue uma rota diferente, afirma, além de não poder ser descartada junto com os demais medicamentos, por se tratar de um perfurocortante.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

“Nem todos os estabelecimentos aceitam ou têm o coletor na farmácia, ou drogaria”, diz a especialista. “E a população, de forma geral, não sabe onde descartar ou, em algumas situações, nunca foi orientada sobre o assunto, assim como não tem ideia dos perigos associados a isso, tanto na parte ambiental quanto sobre o risco para outras pessoas, como os catadores.”

Para ela, há uma lacuna quando se trata da orientação à população. Em cidades e estados remotos, longe dos grandes centros, ela relata que a conscientização e postos de coleta tendem a ser menores, agravados pelos problemas de saneamento.

Caminada diz que é fundamental que sejam intensificadas ações educativas e políticas públicas para que haja conscientização da população e o descarte correto desses resíduos, assim como um aumento significativo dos postos de coleta em todas as regiões do país, visto que a grande maioria desses postos se concentram no Sudeste.

“Outro aspecto que deve ser levado em consideração se refere aos lixões que ainda representam uma parcela significativa de descarte de lixo, o que aumenta o risco de contaminação do solo, da água e, principalmente, os riscos associados aos catadores”, diz.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regulamenta as boas práticas de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde por meio da RDC 222/2018. Ela classifica os resíduos em cinco grupos e define como cada um deve ser acondicionado, transportado e descartado.

As agulhas das canetas emagrecedoras se enquadram no Grupo E: perfurocortantes. A norma exige que sejam descartadas em recipientes rígidos, com tampa, resistentes à punctura (perfuração). No entanto, essa resolução se aplica a serviços de saúde e não orienta quem descarta medicamentos em casa.

Em 2020, o decreto 10.388 regulamentou a logística reversa de medicamentos domiciliares vencidos, mas não inclui perfurocortantes. A caneta emagrecedora, enquanto dispositivo com agulha, de uso pessoal, fica de fora.

Somente em 2023, três anos depois, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) publicou a NBR 17059, norma técnica brasileira que trata especificamente do descarte de resíduos gerados pelo próprio paciente em casa, cobrindo também a autoadministração de medicamentos injetáveis.

Segundo a norma, os objetos perfurocortantes devem ser segregados e armazenados em recipientes de parede rígida -como um pote ou garrafa de plástico mais resistente- com tampa e devidamente identificado com o símbolo de risco infectante.

No entanto, normas da ABNT têm caráter técnico, não legal. Sem uma lei ou decreto que a respalde, nenhum fabricante ou município é obrigado a segui-la.

Em relação ao descarte no âmbito domiciliar, o Ministério da Saúde orienta seguir as recomendações dos fabricantes dos produtos e diz que estados e municípios têm autonomia para definir iniciativas voltadas ao descarte responsável nos territórios.

No âmbito estadual, a Caf (Coordenadoria de Assistência Farmacêutica) da SES-SP (Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo) orienta que o descarte das canetas emagrecedoras seja realizado em locais apropriados nos municípios de residência dos usuários.

A Prefeitura de São Paulo informa que “o descarte de agulhas deve ser realizado por meio de embalagens coletoras resistentes e descartados em postos de coleta localizados em unidades de saúde (UBSs)”, complementando que todas as UBSs do município estão aptas para a coleta e que a população deve buscar a unidade de saúde mais próxima para esclarecer dúvidas e orientações.

O Paraná tem uma resolução estadual conjunta específica, a SEDEST/IAT nº 022/2021, que obriga fabricantes e distribuidores de perfurocortantes a estruturar logística reversa domiciliar.

A BHS (Brasil Health Sustainability) criou o programa Descarte Seguro no estado, fornecendo coletores para unidades de saúde. A empresa já atua desde 2010 com o programa Descarte Consciente, focado na coleta dos demais medicamentos em farmácias.

A BHS distribui um recipiente pequeno (tubos de bolas de tênis e garrafas plásticas resistentes também podem ser usados). Quando cheio, o paciente lacra e leva o coletor lacrado até uma UBS parceira. Atualmente, o coletor fabricado pela empresa está presente em 12 UBS em Curitiba e Londrina.

“Acreditamos que o profissional da área de saúde de uma UBS pode educar esse cliente de como coletar e levar o descarte”, afirma José Francisco Agostini Roxo, diretor-executivo da BHS. Segundo ele, a empresa fornece a logística completa, desde o coletor até o transporte e destinação final.

A destinação final dos coletores tem dois caminhos possíveis, a depender da região e da transportadora. Um é a autoclave, que esteriliza o material pelo calor, tritura e transforma em lixo comum, podendo ir para aterro sanitário. A outra alternativa é a incineração, que também vai para aterro.

Participante do programa do Paraná, a Novo Nordisk (fabricante do Ozempic e Wegovy) lançou no Brasil o Reciclaneta, programa de economia circular para canetas injetáveis pós-consumo.

“Diferentemente da logística reversa definida pela legislação, que destina os resíduos para aterros, incineração ou coprocessamento, o programa promove a reciclagem, priorizando a destinação ambientalmente adequada”, diz Patrícia Byington, chefe de sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil.

Disponível em pontos selecionados na região da Grande São Paulo, o programa coletou mais de 120 mil canetas em sua fase piloto, e segue em expansão. O Reciclaneta, no entanto, visa reciclar somente as canetas, sem as agulhas.

Em relação aos perfurocortantes, a empresa orienta que as agulhas devem ser removidas e descartadas em coletores apropriados e entregues em UBS (Unidades Básicas de Saúde).

A mesma recomendação é feita pela Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, e pela Sanofi, fabricante do Soliqua.

A EMS, que comercializa o Olire e o Linux, foi procurada por aplicativo de mensagem do contato da assessoria de imprensa da farmacêutica, mas não enviou as respostas sobre a orientação de descarte até a publicação desta reportagem.