Pessoas ligadas à Casa Civil e ao TCU (Tribunal de Contas da União) disseram à reportagem que a realização do certma em apenas uma rodada é a melhor alternativa na visão de assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A grande questão a respeito da concessão do ativo é quem poderá apresentar lances. Trata-se do principal leilão portuário do país, que deverá movimentar, quando estiver em pleno funcionamento, a metade de carga do Porto de Santos.

Ministério da Fazenda e área técnica do TCU defendem, em diferentes pareceres, liberdade para qualquer empresa que deseje participar. Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) e Ministério de Portos e Aeroportos pedem que exista restrição aos chamados “atuais incumbentes”.

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Este termo designa armadores (donos de navios) que já possuam terminais em Santos. Os órgãos apontam risco de excessiva concentração de mercado nas mãos de apenas uma empresa. O Ministério Público para o TCU considerou que este modelo é ilegal.

Neste modelo, Maersk, MSC (sócias no terminal BTP) e CMA CGM (dona da Santos Brasil) poderiam participar apenas na segunda rodada, caso não houvesse vencedor na primeira. A hipótese de o leilão não ser resolvido na primeira fase é considerada remota pelo mercado.

Associações de comércio exterior e empresas que desejam participar do leilão veem interesse de grandes armadores internacionais de dominarem a movimentação de cargas do maior porto de América Latina. Elas se apresentaram como partes interessadas no processo no TCU,

O modelo do certame pode se tornar uma bola dividida entre Governo Federal e TCU. O Tribunal vai apresentar uma recomendação da modelagem a ser adotada.

Sobre a posição do Ministério dos Portos e Aeroportos, uma pessoa próxima à Casa Civil afirmou que os termos do leilão precisarão ser aprovados pelo conselho do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos), órgão ligado à Presidência de República, formado por colegiado de ministros e comandado por Lula.

O presidente da República, em viagem à Ásia no mês passado, discutiu o assunto com assessores.

A definição do processo no TCU está interrompido até 8 de dezembro. Em sessão extraordinária na última terça-feira (18), o ministro Augusto Nardes surpreendeu ao pedir vista ao processo depois de já ter se manifestado favoravelmente à restrição.

Esta é a visão que deverá prevalecer no Tribunal, segundo a reportagem apurou. A maioria estaria ao lado do revisor do processo, o ministro Bruno Dantas. Ele acredita que o correto é prestigiar a “modelagem regulatória proposta pela Antaq que restringe o acesso de determinados proponentes na primeira fase do certame”.

É opinião contrária do relator, o ministro Antonio Anastasia, que apresentou voto favorável ao leilão em apenas uma rodada. Para isso, citou argumento que também encontra visão favorável no Governo Federal: se um atual incumbente vencer, poderá assinar o contrato apenas se vender antes o outro ativo portuário que tenha.

Dos nove ministros do TCU, Dantas e Walton Alencar manifestaram votos favoráveis à restrição. Nardes, antes de pedir vista, havia feito o mesmo. O ministro Jorge Antônio de Oliveira sinalizou que pretendia seguir a mesma linha, mas foi interrompido pelo presidente do Tribunal, Vital do Rêgo Filho. Ele pediu que o assunto fosse retomado apenas no próximo dia 8.

A intenção declarada pelo Governo Federal era que o leilão acontecesse neste ano. Mas o tempo que o processo ficou no TCU tornou inviável. Anastasia, irritado, disse que apresentou seu parecer dentro do prazo legal. Depois de definida a modelagem, esta deve ser públicado no Diário Oficial. O leilão pode acontecer depois de 30 dias úteis.

À reportagem o ministro Benjamin Zymler, do TCU, afirmou em setembro que o Tribunal vai apresentar uma recomendação ao Governo Federal, mas disse que o comum é esta sugestão ser acatada. O próprio ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), já disse que este seria o caso.

“É usual o TCU indicar alterações a serem realizadas pelo concedente mas, a bem da verdade, o que se em percebido é um espaço de diálogo entre o TCU e o concedente [Governo Federal], o que tende a evitar discussões e impugnações. Por isso que, a rigor, os apontamentos realizados pelo TCU tendem a ser seguidos”, afirma João Paulo Pessoa, advogado especialista em Direito Público.

Mas para o advogado Fernando Vernalha, especialista em infraestrutura, o TCU extravasa sua competência ao entrar na concepção técnica ou na política regulatória do projeto.

“Embora eu reconheça que o TCU tem quadros muito qualificados e pessoas muito experientes para fazer todas essas análises, existe um desenho ali, uma delimitação de competências no nosso ordenamento jurídico que reserva as atribuições e competências para a análise técnica, de concepção técnica e de política regulatória, para o regulador e não para o controlador”, afirma ele.

O que é o Tecon 10

O megaterminal será instalado em uma área no bairro do Saboó, em Santos, de 622 mil metros quadrados. O projeto é que seja multipropósito, movimentando contêineres e carga solta. O vencedor do leilão será definido pelo modelo da maior outorga: ganha quem oferecer mais dinheiro pelo direito de construí-lo e operá-lo.

A capacidade vai chegar a 3,5 milhões de TEUs por ano (cada TEU representa um contêiner de 20 pés, ou cerca de 6 metros). Será o maior terminal do tipo no país.

Serão quatro berços, como são chamados os locais de atracação do navio para embarque e desembarque. A previsão de investimento nos 25 anos de concessão pode chegar a R$ 40 bilhões.